Índia – Homenagem aos salesianos mortos em Imphal: pastores que permaneceram com seu rebanho
(ANS – Imphal) – Há 25 anos, em 13 de maio de 2001, o Noviciado Salesiano de Ngarian, em Imphal, foi palco de uma tragédia que permanece viva na memória da Igreja na Índia. Na Capela, 27 noviços provenientes do nordeste indiano, de Chhattisgarh, Jharkhand e Kerala estavam ajoelhados em adoração eucarística. A luz das velas tremulava, os cânticos elevavam-se suavemente e o silêncio envolvia os jovens em profunda devoção, até que homens armados e encapuzados invadiram o ambiente, rompendo abruptamente a serenidade da oração.
O cozinheiro foi obrigado a chamar o Mestre dos Noviços, o P. Raphael Paliakara. Sereno, mas prudente, ele ouviu as exigências — dinheiro e a entrega dos noviços não locais — e tentou dialogar com os invasores na quadra de basquete. Diante de sua ausência, o P. Andreas Kindo saiu ao encontro dos agressores, oferecendo o dinheiro disponível e recusando-se a entregar qualquer noviço. Pouco depois, o Salesiano Coadjutor Shinu Joseph orientou os noviços a permanecerem na capela. Nenhum deles cedeu. Essa firmeza custou-lhes a vida.
Testemunhos dos sobreviventes
Aquela noite permanece vívida na memória dos noviços. Anthony Toppo recorda o medo que os dominava, ao passo que a voz tranquila do P. Raphael lhes passava confiança. Thomas Josekutty, atualmente envolvido no ministério bíblico, recorda-se de ter ouvido o P. Andreas declarar: “Nenhum noviço será entregue”. Mesmo sob os tiros, essas palavras lhe conferiram coragem. Igness Hans, noviço local de Manipur, recorda Shinu como um irmão mais velho que se tornou seu escudo. Shyjan Job, atualmente salesiano em Manipur, declara que sua vida foi transformada naquela noite. Dez dos noviços se tornaram sacerdotes, mas todos preservam o testemunho daqueles que sacrificaram suas vidas para que outros pudessem viver e servir.
As circunstâncias da tragédia
A Igreja em Imphal enfrentou um período de grande instabilidade nos anos de 2000 e 2001. Grupos militantes começaram a exigir constantemente fundos de instituições católicas, principalmente de Escolas. A estratégia era intencional: focar em sacerdotes e religiosos de outras regiões para evitar conflitos intercomunitários e não atingir o clero local. Os noviciados, que recebiam muitos jovens de fora de Manipur, passaram a ser alvos vulneráveis. Em Ngarian, os militantes exigiram a entrega dos noviços de fora, com o objetivo de executá-los como ato de intimidação. Ao se negarem, esses salesianos demonstraram lealdade pastoral, sacrificando suas vidas.
Um contexto mais amplo de violência
O massacre de Ngarian insere-se em um cenário mais amplo de hostilidade contra instituições cristãs em Manipur. Em 1990, o P. Mathew Manianchira, diretor da Canchipur Catholic High School, foi assassinado a tiros por militantes da Frente Popular Revolucionária. Em março de 2001, o P. Devasia, diretor da Don Bosco School de Imphal, foi atingido à queima-roupa após recusar pedidos de extorsão. Ele sobreviveu e, posteriormente, exerceu seu ministério no sul da Índia sob identidade reservada. Ainda naquele ano, o P. Tommy Manjalee, também diretor de uma escola salesiana, sobreviveu a um atentado após resistir a pressões semelhantes. Em 15 de maio de 2001, os salesianos assassinados em Ngarian somaram-se a essa dolorosa sequência de violência.
Uma herança preservada na memória e na arte
A tragédia permanece viva por meio da arte e do testemunho. O documentário “Os Três Diamantes Vermelhos de Kangleipak” (Manipur): o preço pago, do P. Thomas Josekutty Madathiparambil — ele próprio noviço presente naquela noite —, constitui um tributo eloquente. A obra contrapõe a generosidade do sacrifício à brutalidade da violência, garantindo que a memória desses Salesianos continue a inspirar novas gerações.
A inscrição no memorial em Imphal — “Eles deram a vida por nós” — vai além de uma simples homenagem e se torna uma declaração de Fé. Seu sacrifício demonstra que os pastores verdadeiros não abandonam seu rebanho, nem mesmo perante o risco de morte. Vinte e cinco anos depois, seu testemunho continua frutífero: os noviços resgatados — dez dos quais se tornaram sacerdotes — são resultado concreto de seu sacrifício.
Ao recordar este vigésimo quinto aniversário, a Igreja na Índia reconhece nos mártires de Ngarian, ao lado de outras vítimas missionárias em Manipur, sinais duradouros de amor pastoral, resiliência e fidelidade ao Evangelho. Sua história recorda que a Fé, quando provada, torna-se coragem — e a coragem, quando vivida até o fim, transforma-se em sacrifício.