Itália – Violência contra as mulheres e cultura do respeito: um desafio educativo compartilhado

(ANS – Roma) – Uma plateia silenciosa, atenta, emoções e reflexões: esse foi o clima que marcou, em 18 de março de 2026, o encontro da comunidade acadêmica da Universidade Pontifícia Salesiana (UPS), dedicado ao tema “Violência contra as mulheres e cultura do respeito: um desafio educativo”, surgido a partir de uma solicitação direta dos Alunos.

A abertura dos trabalhos coube ao Reitor Magnífico da UPS, P. Andrea Bozzolo, que destacou a responsabilidade do mundo educativo perante um fenômeno tão difundido quanto complexo. Não basta condenar a violência, disse: é preciso compreendê-la, reconhecê-la, preveni-la.

O momento mais intenso do encontro foi marcado pelo testemunho de Filomena Di Gennaro. Sobrevivente de uma tentativa de homicídio por parte do ex-namorado, em 2006, hoje vive em cadeira de rodas. Seu relato não se limitou à dramaticidade do episódio, mas evidenciou sobretudo o que o antecedeu: sinais sutis, muitas vezes imperceptíveis para quem os vivencia. Controle, pressão psicológica, ciúmes, restrição da liberdade pessoal: dinâmicas que podem ser confundidas com amor, mas que, na realidade, o negam. “Sempre pensamos que certas coisas acontecem com os outros”, afirmou aos estudantes, apontando nessa subestimação um dos principais obstáculos à prevenção.

O ponto mais forte de sua reflexão foi o tema da posse. “Minha ou de mais ninguém” foram as palavras que ouviu do agressor antes de atirar nela. Hoje, essa frase se transforma, em sua mensagem, num alerta a ser invertido: ninguém pertence a ninguém. Daí o convite, especialmente dirigido aos jovens, a reconhecer os sinais de uma relação doentia e a não permanecer em silêncio. Ao lado da denúncia, seu testemunho abriu também um horizonte de Esperança: a possibilidade de reconstruir a própria vida e de viver relações saudáveis, baseadas no respeito e na reciprocidade.

A partir desse relato, o prof. Marco Pacifico ofereceu uma leitura psicológica do fenômeno, evidenciando que, na base de muitas relações violentas, está uma profunda fragilidade identitária. Nessas dinâmicas, o outro deixa de ser Pessoa e passa a ser tratado como objeto, necessário para o preenchimento de um vazio interior. São relações marcadas por dependência emocional, controle e incapacidade de aceitar a autonomia do outro. Situações difíceis de reconhecer por quem as vive – observou o professor – o que torna ainda mais decisivo o papel de quem está ao redor: amigos, familiares, professores.

Não existem soluções imediatas nem atalhos: a mudança exige tempo, consciência e percursos profundos, distantes das simplificações frequentemente presentes no debate público e nas redes sociais.

A dimensão educativa esteve no centro da reflexão proposta pelo prof. Alessandro Ricci, que evidenciou uma lacuna cada vez mais evidente: a ausência de uma autêntica educação afetiva e emocional. Segundo ele, crianças e adolescentes crescem hoje imersos num ambiente digital que frequentemente difunde modelos relacionais distorcidos. Internet, pornografia, redes sociais, conteúdos musicais…, acabam assumindo, na prática, o papel de principais formadores, enquanto família e escola enfrentam dificuldades para exercer essa função. A tecnologia, ressaltou, não constitui um problema em si, mas transforma profundamente a maneira de viver as relações: encurta os tempos de espera, estimula a imediaticidade dos impulsos e favorece o distanciamento emocional – um fator que pode enfraquecer os mecanismos de autocontrole e facilitar a adoção de comportamentos agressivos.

De aí a urgência de um renovado empenho educativo, capaz de desenvolver, nos jovens, competências fundamentais: reconhecer as próprias emoções, nomeá-las, aprender a administrá-las e comunicá-las. Sem esse percurso, cresce o risco de uma incapacidade cada vez maior de viver relações de forma saudável.

O encontro foi concluído pelo Reitor Magnífico, P. Andrea Bozzolo, com um apelo direto à responsabilidade pessoal. O problema, observou, não está na falta de princípios — sobre os quais, em teoria, há consenso —, mas na capacidade de traduzi-los em atitudes concretas. Educar não significa apenas transmitir conhecimentos, mas acompanhar um processo interior, feito de consciência, confronto com as próprias fragilidades e amadurecimento afetivo. Nesse horizonte, o amor autêntico se define como reconhecimento da singularidade do outro e como capacidade de favorecer o seu crescimento, superando toda lógica de posse.

O encontro foi encerrado entre perguntas e reflexões, deixando nos Alunos a consciência de que a violência de gênero não é uma realidade distante mas um desafio que interpela a todos — e cuja prevenção passa, antes de tudo, pela educação.

Fonte: Università Pontificia Salesiana

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