{"id":2029676,"date":"2026-01-01T23:00:00","date_gmt":"2026-01-01T23:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2026-01-01T23:00:00","modified_gmt":"2026-01-01T23:00:00","slug":"vaticano-dia-mundial-da-paz-2026-o-papa-leao-xiv-convida-a-uma-paz-desarmada-e-desarmante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/vaticano-dia-mundial-da-paz-2026-o-papa-leao-xiv-convida-a-uma-paz-desarmada-e-desarmante\/","title":{"rendered":"Vaticano &#8211; Dia Mundial da Paz 2026: o Papa Le\u00e3o XIV convida a uma paz \u201cdesarmada e desarmante\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>(ANS &ndash; Vaticano)<\/strong> &#8211; Por ocasi&atilde;o do <strong>LIX Dia Mundial da Paz<\/strong>, celebrado em <strong>1&ordm; de janeiro de 2026<\/strong>, <strong>o Papa Le&atilde;o XIV<\/strong> dirigiu &agrave; Igreja e ao Mundo, a sua Mensagem de Guia e Pastor. No texto, o Santo Padre, referindo-se &agrave; sauda&ccedil;&atilde;o do Cristo Ressuscitado prop&otilde;e o tema <em>&ldquo;A paz esteja convosco. Rumo a uma paz desarmada e desarmante&rdquo;<\/em>. A Mensagem convida a redescobrir a paz como dom de Deus, presen&ccedil;a viva e caminho poss&iacute;vel, mesmo em tempos marcados pela viol&ecirc;ncia e pelos conflitos. Com tom prof&eacute;tico, o Papa apela ao desarmamento dos cora&ccedil;&otilde;es e das mentes, &agrave; responsabilidade pessoal e coletiva, e &agrave; for&ccedil;a do di&aacute;logo. Segue-se o texto integral da Mensagem.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>MENSAGEM DO SANTO PADRE <strong>LE&Atilde;O XIV <\/strong>PARA O <strong>LIX DIA MUNDIAL DA PAZ &#8211; <\/strong><strong>1 DE JANEIRO DE 2026<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A paz esteja com todos v&oacute;s. Rumo a uma paz desarmada e desarmante<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&ldquo;A paz esteja contigo!&rdquo;. Esta antiga sauda&ccedil;&atilde;o, presente ainda hoje em muitas culturas, ganhou novo vigor nos l&aacute;bios de Jesus ressuscitado na noite de P&aacute;scoa. &laquo;A paz esteja convosco!&raquo; (&nbsp;<em>Jo<\/em>&nbsp;20, 19.21) &eacute; a sua Palavra que n&atilde;o s&oacute; deseja, mas realiza uma mudan&ccedil;a definitiva naqueles que a acolhem e, consequentemente, em toda a realidade. Por isso, os sucessores dos Ap&oacute;stolos exprimem todos os dias e em todo o mundo a revolu&ccedil;&atilde;o mais silenciosa: &ldquo;A paz esteja convosco!&rdquo;.&nbsp;Desde a noite da minha elei&ccedil;&atilde;o como Bispo de Roma, quis inserir a minha sauda&ccedil;&atilde;o neste an&uacute;ncio coral. E desejo reiter&aacute;-lo: esta &eacute; a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela prov&eacute;m de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente.&nbsp;[1]<\/p>\n<p><strong><em>A paz de Cristo ressuscitado<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quem venceu a morte e derrubou as barreiras que separavam os seres humanos (cf.&nbsp;<em>Ef<\/em>&nbsp;2, 14) foi o Bom Pastor que d&aacute; a vida pelo rebanho e tem muitas ovelhas que est&atilde;o fora do seu redil (cf.&nbsp;<em>Jo<\/em>&nbsp;10, 11.16): Cristo, nossa paz. A sua presen&ccedil;a, o seu dom e a sua vit&oacute;ria reverberam na perseveran&ccedil;a de muitas testemunhas, por meio das quais a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais percept&iacute;vel e luminosa na escurid&atilde;o dos tempos.<\/p>\n<p>Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz n&atilde;o &eacute; apenas uma imagem b&iacute;blica para descrever o sofrimento do qual est&aacute; a nascer um mundo novo: &eacute; uma experi&ecirc;ncia que nos atravessa e nos surpreende diante das prova&ccedil;&otilde;es que encontramos nas circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas em que vivemos. Ora, para n&atilde;o afundarmos na escurid&atilde;o, &eacute; necess&aacute;rio ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exig&ecirc;ncia que os disc&iacute;pulos de Jesus s&atilde;o chamados a viver de maneira &uacute;nica e privilegiada, mas que, de muitas maneiras, sabe abrir caminho no cora&ccedil;&atilde;o de cada ser humano. A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a intelig&ecirc;ncia, resiste &agrave; viol&ecirc;ncia e a vence. A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena &ldquo;basta!&rdquo;, &agrave; paz se suplica &ldquo;para sempre&rdquo;. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte. &Eacute; neste sentir que vivem os promotores da paz que, no drama daquilo que o Papa Francisco definiu como &ldquo;terceira guerra mundial em peda&ccedil;os&rdquo;, ainda resistem &agrave; contamina&ccedil;&atilde;o das trevas, como sentinelas na noite.<\/p>\n<p>Infelizmente, o contr&aacute;rio &eacute; poss&iacute;vel, ou seja, esquecer a luz: assim, perde-se o realismo e se cede a uma representa&ccedil;&atilde;o parcial e distorcida do mundo, sob o sinal das trevas e do medo. Atualmente, n&atilde;o s&atilde;o poucos aqueles que chamam de realistas as narrativas privas de esperan&ccedil;a, cegas &agrave; beleza dos outros e esquecidas da gra&ccedil;a de Deus que sempre age nos cora&ccedil;&otilde;es humanos, por mais feridos que estejam pelo pecado. Santo Agostinho exortava os crist&atilde;os a estabelecerem uma amizade indissol&uacute;vel com a paz, para que, guardando-a no &iacute;ntimo do pr&oacute;prio esp&iacute;rito, pudessem irradiar o calor luminoso ao seu redor. Dirigindo-se &agrave; sua comunidade, ele escreveu: &laquo;Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a v&oacute;s primeiro; sede v&oacute;s, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de v&oacute;s a luz acesa&raquo;.&nbsp;[2]<\/p>\n<p>Queridos irm&atilde;os e irm&atilde;s, quer tenhamos o dom da f&eacute;, quer pare&ccedil;a que n&atilde;o o temos, abramo-nos &agrave; paz! Acolhamo-la e reconhe&ccedil;amo-la, em vez de a considerarmos distante e imposs&iacute;vel. Antes de ser um objetivo, a paz &eacute; uma presen&ccedil;a e um caminho. Mesmo que seja contestada dentro e fora de n&oacute;s, como uma pequena chama amea&ccedil;ada pela tempestade, guardemo-la sem esquecer os nomes e as hist&oacute;rias daqueles que a testemunharam. &Eacute; um princ&iacute;pio que orienta e determina as nossas escolhas. Tamb&eacute;m nos lugares onde s&oacute; restam escombros e onde o desespero parece inevit&aacute;vel, ainda hoje encontramos quem n&atilde;o esqueceu a paz. Do mesmo modo que, na noite de P&aacute;scoa, Jesus entrou no lugar onde se encontravam os disc&iacute;pulos assustados e desanimados, assim a paz de Cristo ressuscitado continua a atravessar portas e barreiras com as vozes e os rostos das suas testemunhas. &Eacute; o dom que permite n&atilde;o esquecer o bem, reconhec&ecirc;-lo como vencedor, escolh&ecirc;-lo novamente e juntos.<\/p>\n<p><strong><em>Uma paz desarmada<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Pouco antes de ser capturado, num momento de intensa confid&ecirc;ncia, Jesus disse aos que estavam com Ele: &laquo;Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. N&atilde;o &eacute; como a d&aacute; o mundo, que Eu vo-la dou&raquo;. E imediatamente acrescentou: &laquo;N&atilde;o se perturbe o vosso cora&ccedil;&atilde;o nem se acobarde&raquo; (<em>Jo<\/em>&nbsp;14, 27). A perturba&ccedil;&atilde;o e o medo podiam, certamente, referir-se &agrave; viol&ecirc;ncia que em breve se abateria sobre Ele. De modo ainda mais profundo, os Evangelhos n&atilde;o escondem que o que desconcertou os disc&iacute;pulos foi a sua resposta n&atilde;o violenta: um caminho que todos, Pedro em primeiro lugar, contestaram, mas que o Mestre pediu que seguissem at&eacute; ao fim. O caminho de Jesus continua a ser motivo de perturba&ccedil;&atilde;o e medo. E Ele repete com firmeza &agrave;queles que gostariam de defend&ecirc;-lo: &laquo;Mete a espada na bainha&raquo; (<em>Jo<\/em>&nbsp;18, 11; cf.&nbsp;<em>Mt<\/em>&nbsp;26, 52). A paz de Jesus ressuscitado &eacute; desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunst&acirc;ncias hist&oacute;ricas, pol&iacute;ticas e sociais. Os crist&atilde;os devem tornar-se, juntos, testemunhas prof&eacute;ticas desta novidade, conscientes das trag&eacute;dias das quais muitas vezes foram c&uacute;mplices. A grande par&aacute;bola do ju&iacute;zo universal convida todos os crist&atilde;os a, conscientemente, agir com miseric&oacute;rdia (cf.&nbsp;<em>Mt<\/em>&nbsp;25, 31-46). E, ao faz&ecirc;-lo, encontrar&atilde;o ao seu lado irm&atilde;os e irm&atilde;s que, por caminhos diferentes, souberam ouvir a dor dos outros e se libertaram interiormente do engano da viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Embora hoje n&atilde;o sejam poucas as pessoas com o cora&ccedil;&atilde;o pronto para a paz, um grande sentimento de impot&ecirc;ncia as invade diante do curso cada vez mais incerto dos acontecimentos. J&aacute; Santo Agostinho, com efeito, assinalava um paradoxo particular: &laquo;N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil possuir a paz. &Eacute; mais dif&iacute;cil, quando muito, louv&aacute;-la. Se quisermos louv&aacute;-la, precisamos de ter capacidades que talvez nos faltem; devemos procurar as ideias certas, ponderar as frases. Se, em vez disso, quisermos t&ecirc;-la, ela est&aacute; l&aacute;, ao nosso alcance, e podemos possu&iacute;-la sem qualquer esfor&ccedil;o&raquo;.&nbsp;[3]<\/p>\n<p>Quando tratamos a paz como um ideal distante, acabamos por n&atilde;o considerar escandaloso que ela possa ser negada e que at&eacute; mesmo se fa&ccedil;a guerra para alcan&ccedil;&aacute;-la. Parecem faltar as ideias certas, as frases ponderadas, a capacidade de dizer que a paz est&aacute; ao nosso alcance. Se a paz n&atilde;o for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida dom&eacute;stica, quanto na vida p&uacute;blica. Na rela&ccedil;&atilde;o entre cidad&atilde;os e governantes, chega-se a considerar uma culpa o n&atilde;o estar suficientemente preparado para a guerra, para reagir aos ataques e para responder &agrave; viol&ecirc;ncia. No plano pol&iacute;tico, essa l&oacute;gica de oposi&ccedil;&atilde;o, muito al&eacute;m do princ&iacute;pio da leg&iacute;tima defesa, &eacute; o dado mais atual numa desestabiliza&ccedil;&atilde;o planet&aacute;ria que a cada dia se torna mais dram&aacute;tica e imprevis&iacute;vel. N&atilde;o por acaso, os repetidos apelos para aumentar as despesas militares &ndash; e as escolhas que disso decorrem &ndash; s&atilde;o apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia. Na verdade, a for&ccedil;a dissuasiva do poder e, em particular, a dissuas&atilde;o nuclear, encarnam a irracionalidade de uma rela&ccedil;&atilde;o entre os povos baseada n&atilde;o no direito, na justi&ccedil;a e na confian&ccedil;a, mas no medo e no dom&iacute;nio da for&ccedil;a. Como j&aacute; escrevia S&atilde;o Jo&atilde;o XXIII na sua &eacute;poca: &laquo;O resultado &eacute; que os povos vivem em terror permanente, como sob a amea&ccedil;a de uma tempestade que pode rebentar a cada momento em avassaladora destrui&ccedil;&atilde;o. J&aacute; que as armas existem e, se parece dif&iacute;cil que haja pessoas capazes de assumir a responsabilidade das mortes e incomensur&aacute;veis destrui&ccedil;&otilde;es que a guerra provocaria, n&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel que um fato imprevis&iacute;vel e incontrol&aacute;vel possa inesperadamente atear esse inc&ecirc;ndio&raquo;.&nbsp;[4]<\/p>\n<p>Pois bem, ao longo de 2024, as despesas militares a n&iacute;vel mundial aumentaram 9,4% em rela&ccedil;&atilde;o ao ano anterior, confirmando a tend&ecirc;ncia ininterrupta dos &uacute;ltimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 bili&otilde;es de d&oacute;lares, ou seja, 2,5% do PIB mundial.&nbsp;[5]&nbsp;Mais ainda, parece que os novos desafios devem ser enfrentados atualmente n&atilde;o s&oacute; com um enorme esfor&ccedil;o econ&oacute;mico para o rearmamento, mas tamb&eacute;m com um realinhamento das pol&iacute;ticas educativas: em vez de uma cultura da mem&oacute;ria, que preserve a consci&ecirc;ncia adquirida no s&eacute;culo XX e n&atilde;o esque&ccedil;a os milh&otilde;es de v&iacute;timas, promovem-se campanhas de comunica&ccedil;&atilde;o e programas educativos em escolas e universidades, bem como nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social, que difundem a percep&ccedil;&atilde;o de que se vive continuamente sob amea&ccedil;a e transmitem uma no&ccedil;&atilde;o de defesa e seguran&ccedil;a meramente armada.<\/p>\n<p>Todavia, &laquo;quem ama verdadeiramente a paz ama tamb&eacute;m os inimigos da paz&raquo;.&nbsp;[6]&nbsp;Assim, Santo Agostinho recomendava n&atilde;o destruir pontes e n&atilde;o insistir com repreens&otilde;es, preferindo a via da escuta e, na medida do poss&iacute;vel, do encontro com as raz&otilde;es dos outros. Sessenta anos atr&aacute;s, o&nbsp;Conc&iacute;lio Vaticano II&nbsp;chegava &agrave; sua conclus&atilde;o com a consci&ecirc;ncia da urg&ecirc;ncia de um di&aacute;logo entre a Igreja e o mundo contempor&acirc;neo. Em particular, a Constitui&ccedil;&atilde;o&nbsp;<em>Gaudium et spes<\/em>&nbsp;chamava a aten&ccedil;&atilde;o para a evolu&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica b&eacute;lica: &laquo;O perigo peculiar da guerra hodierna est&aacute; em que ela fornece, por assim dizer, a oportunidade de cometer tais crimes &agrave;queles que est&atilde;o de posse das modernas armas cient&iacute;ficas; e, por uma consequ&ecirc;ncia quase fatal, pode impelir as vontades dos homens &agrave;s mais atrozes decis&otilde;es. Para que tal nunca venha a suceder, os Bispos de todo o mundo, reunidos, imploram a todos, sobretudo aos governantes e chefes militares, que ponderem sem cessar a sua t&atilde;o grande responsabilidade perante Deus e a humanidade&raquo;.&nbsp;[7]<\/p>\n<p>Ao reiterar o apelo dos Padres conciliares e considerando o di&aacute;logo como a via mais eficaz em todos os n&iacute;veis, constatamos que os recentes avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos e a aplica&ccedil;&atilde;o das intelig&ecirc;ncias artificiais no &acirc;mbito militar radicalizaram a trag&eacute;dia dos conflitos armados. Est&aacute;-se a delinear at&eacute; mesmo um processo de desresponsabiliza&ccedil;&atilde;o dos l&iacute;deres pol&iacute;ticos e militares devido ao crescente &ldquo;delegar&rdquo; &agrave;s m&aacute;quinas as decis&otilde;es relativas &agrave; vida e &agrave; morte das pessoas. &Eacute; uma espiral de destrui&ccedil;&atilde;o sem precedentes, que compromete o humanismo jur&iacute;dico e filos&oacute;fico do qual qualquer civiliza&ccedil;&atilde;o depende e pelo qual &eacute; protegida. &Eacute; preciso denunciar as enormes concentra&ccedil;&otilde;es de interesses econ&oacute;micos e financeiros privados que est&atilde;o a empurrar os Estados nessa dire&ccedil;&atilde;o; mas isso n&atilde;o &eacute; suficiente, se ao mesmo tempo n&atilde;o for promovido o despertar das consci&ecirc;ncias e do pensamento cr&iacute;tico. A Enc&iacute;clica&nbsp;<em>Fratelli tutti<\/em>&nbsp;apresenta S&atilde;o Francisco de Assis como exemplo desse despertar: &laquo;Naquele mundo cheio de torre&otilde;es de vigia e muralhas defensivas, as cidades viviam guerras sangrentas entre fam&iacute;lias poderosas, ao mesmo tempo que cresciam as &aacute;reas miser&aacute;veis das periferias exclu&iacute;das. L&aacute;, Francisco recebeu no seu &iacute;ntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de dom&iacute;nio sobre os outros, fez-se um dos &uacute;ltimos e procurou viver em harmonia com todos&raquo;.&nbsp;[8]&nbsp;&Eacute; uma hist&oacute;ria que quer continuar em n&oacute;s e que exige unir esfor&ccedil;os para contribuir mutuamente para uma paz desarmante, uma paz que nasce da abertura e da humildade evang&eacute;lica.<\/p>\n<p><strong><em>Uma paz desarmante<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A bondade &eacute; desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito crian&ccedil;a. O mist&eacute;rio da Encarna&ccedil;&atilde;o, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, come&ccedil;a no ventre de uma jovem m&atilde;e e manifesta-se na manjedoura de Bel&eacute;m. &laquo;Paz na terra&raquo;, cantam os anjos, anunciando a presen&ccedil;a de um Deus indefeso, pelo qual a humanidade s&oacute; pode descobrir-se amada cuidando d&rsquo;Ele (cf.&nbsp;<em>Lc<\/em>&nbsp;2, 13-14). Nada tem a capacidade de mudar-nos mais do que um filho. E talvez seja justamente o pensamento nos nossos filhos, nas crian&ccedil;as e tamb&eacute;m naqueles que s&atilde;o fr&aacute;geis como elas, que nos traspassa o cora&ccedil;&atilde;o (cf.&nbsp;<em>Act<\/em>&nbsp;2, 37). A este respeito, o meu venerado Predecessor escrevia que &laquo;a fragilidade humana tem o poder de tornar-nos mais l&uacute;cidos em rela&ccedil;&atilde;o ao que dura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez por isso tendamos t&atilde;o frequentemente a negar os limites e a fugir das pessoas fr&aacute;geis e feridas: elas t&ecirc;m o poder de questionar a dire&ccedil;&atilde;o que escolhemos, como indiv&iacute;duos e como comunidade&raquo;.&nbsp;[9]<\/p>\n<p>S&atilde;o Jo&atilde;o XXIII&nbsp;foi o primeiro a introduzir a perspectiva de um desarmamento integral, alcan&ccedil;ado somente atrav&eacute;s da renova&ccedil;&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o e da intelig&ecirc;ncia. Assim escreveu ele na Carta enc&iacute;clica&nbsp;<em>Pacem in terris<\/em>: &laquo;Todos devem estar convencidos de que nem a ren&uacute;ncia &agrave; competi&ccedil;&atilde;o militar, nem a redu&ccedil;&atilde;o dos armamentos, nem a sua completa elimina&ccedil;&atilde;o, que seria o principal, de modo nenhum se pode levar a efeito tudo isto, se n&atilde;o se proceder a um desarmamento integral, que atinja o pr&oacute;prio esp&iacute;rito, isto &eacute;, se n&atilde;o trabalharem todos em conc&oacute;rdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose de uma poss&iacute;vel guerra. Mas isto requer que, em vez do crit&eacute;rio de equil&iacute;brio em armamentos que hoje mant&eacute;m a paz, se abrace o princ&iacute;pio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos n&atilde;o se baseia em tal equil&iacute;brio, mas sim e exclusivamente na confian&ccedil;a m&uacute;tua. N&oacute;s pensamos que se trata de objetivo poss&iacute;vel, por tratar-se de causa que n&atilde;o s&oacute; se imp&otilde;e pelos princ&iacute;pios da reta raz&atilde;o, mas que &eacute; sumamente desej&aacute;vel e fecunda de preciosos resultados&raquo;.&nbsp;[10]<\/p>\n<p>Este &eacute; um servi&ccedil;o fundamental que as religi&otilde;es devem prestar &agrave; humanidade sofredora, vigiando sobre a crescente tentativa de transformar em armas at&eacute; mesmo pensamentos e palavras. As grandes tradi&ccedil;&otilde;es espirituais, assim como o reto uso da raz&atilde;o, fazem-nos ir al&eacute;m dos la&ccedil;os de sangue e &eacute;tnicos, ou daquelas fraternidades que reconhecem apenas quem &eacute; semelhante e rejeitam quem &eacute; diferente. Hoje vemos como isso n&atilde;o &eacute; &oacute;bvio. Infelizmente, faz parte do panorama contempor&acirc;neo, cada vez mais, arrastar as palavras da f&eacute; para o embate pol&iacute;tico, aben&ccedil;oar o nacionalismo e justificar religiosamente a viol&ecirc;ncia e a luta armada. Os fi&eacute;is devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasf&eacute;mia que obscurecem o Santo Nome de Deus. Por isso, juntamente com a a&ccedil;&atilde;o, &eacute; mais do que nunca necess&aacute;rio cultivar a ora&ccedil;&atilde;o, a espiritualidade, o di&aacute;logo ecum&eacute;nico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradi&ccedil;&otilde;es e culturas. Em todo o mundo, &eacute; desej&aacute;vel que &laquo;cada comunidade se torne uma &ldquo;casa de paz&rdquo;, onde se aprende a neutralizar a hostilidade atrav&eacute;s do di&aacute;logo, onde se pratica a justi&ccedil;a e se conserva o perd&atilde;o&raquo;.&nbsp;[11]&nbsp;Hoje, mais do que nunca, &eacute; preciso mostrar que a paz n&atilde;o &eacute; uma utopia, atrav&eacute;s de uma criatividade pastoral atenta e generativa.<\/p>\n<p>Por outro lado, isso n&atilde;o deve desviar a aten&ccedil;&atilde;o de todos da import&acirc;ncia da dimens&atilde;o pol&iacute;tica. Aqueles que s&atilde;o chamados a assumir responsabilidades p&uacute;blicas, nos mais altos e qualificados cargos, investiguem &laquo;a fundo qual a melhor maneira de se chegar &agrave; maior harmonia das comunidades pol&iacute;ticas no plano mundial; harmonia, repetimos, que se baseia na confian&ccedil;a m&uacute;tua, na sinceridade dos tratados e na fidelidade aos compromissos assumidos. Examinem de tal maneira todos os aspectos do problema para encontrarem no n&oacute; da quest&atilde;o, a partir do qual possam abrir caminho a um entendimento leal, duradouro e fecundo&raquo;.&nbsp;[12]&nbsp;&Eacute; o caminho desarmante da diplomacia, da media&ccedil;&atilde;o, do direito internacional, infelizmente contrariado por viola&ccedil;&otilde;es cada vez mais frequentes de acordos alcan&ccedil;ados com grande esfor&ccedil;o, num contexto que exigiria n&atilde;o a deslegitima&ccedil;&atilde;o, mas sim o fortalecimento das institui&ccedil;&otilde;es supranacionais.<\/p>\n<p>Hoje, a justi&ccedil;a e a dignidade humana est&atilde;o, mais do que nunca, expostas aos desequil&iacute;brios de poder entre os mais fortes. Ent&atilde;o, como viver num tempo de desestabiliza&ccedil;&atilde;o e conflitos, libertando-se do mal? &Eacute; necess&aacute;rio motivar e apoiar todas as iniciativas espirituais, culturais e pol&iacute;ticas que mantenham viva a esperan&ccedil;a, combatendo a difus&atilde;o de &laquo;atitudes fatalistas a respeito da globaliza&ccedil;&atilde;o, como se as din&acirc;micas em ato fossem produzidas por for&ccedil;as impessoais an&oacute;nimas e por estruturas independentes da vontade humana&raquo;.&nbsp;[13]&nbsp;Se, efetivamente, &laquo;a melhor maneira de dominar e avan&ccedil;ar sem entraves &eacute; semear o des&acirc;nimo e despertar uma desconfian&ccedil;a constante, mesmo disfar&ccedil;ada por detr&aacute;s da defesa de alguns valores&raquo;,&nbsp;[14]&nbsp;deve se contrapor a tal estrat&eacute;gia o desenvolvimento de sociedades civis conscientes, de formas de associativismo respons&aacute;vel, de experi&ecirc;ncias de participa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o violenta, de pr&aacute;ticas de justi&ccedil;a restaurativa em pequena e grande escala.&nbsp;Le&atilde;o XIII&nbsp;j&aacute; o salientava claramente na Enc&iacute;clica&nbsp;<em>Rerum novarum<\/em>: &laquo;A experi&ecirc;ncia que o homem adquire todos os dias da exiguidade das suas for&ccedil;as, obriga-o e impele-o a agregar-se a uma coopera&ccedil;&atilde;o estranha. &Eacute; nas Sagradas Letras que se l&ecirc; esta m&aacute;xima: &ldquo;Mais valem dois juntos que um s&oacute;, pois tiram vantagem da sua associa&ccedil;&atilde;o. Se um cai, o outro sustenta-o. Desgra&ccedil;ado do homem s&oacute;, pois; quando cair, n&atilde;o ter&aacute; ningu&eacute;m que o levante&rdquo; (&nbsp;<em>Ecl<\/em>&nbsp;4, 9-10). E esta outra: &ldquo;O irm&atilde;o que &eacute; ajudado por seu irm&atilde;o, &eacute; como uma cidade forte&rdquo;&raquo; (&nbsp;<em>Pr<\/em>&nbsp;18, 19).&nbsp;[15]<\/p>\n<p>Que isso seja um fruto do Jubileu da Esperan&ccedil;a, que levou milh&otilde;es de seres humanos a redescobrirem-se peregrinos e a iniciarem em si mesmos aquele desarmamento do cora&ccedil;&atilde;o, da mente e da vida, ao qual Deus n&atilde;o tardar&aacute; em responder, cumprindo as suas promessas: &laquo;Ele julgar&aacute; as na&ccedil;&otilde;es, e dar&aacute; as suas leis a muitos povos, os quais transformar&atilde;o as suas espadas em relhas de arados, e as suas lan&ccedil;as, em foices. Uma na&ccedil;&atilde;o n&atilde;o levantar&aacute; a espada contra outra, e n&atilde;o se adestrar&atilde;o mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob! Caminhemos &agrave; luz do Senhor&raquo; (<em>Is<\/em>&nbsp;2, 4-5).<\/p>\n<p><em>Vaticano, 8 de dezembro de 2025<\/em><\/p>\n<p>LE&Atilde;O PP. XIV<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(ANS &ndash; Vaticano) &#8211; Por ocasi&atilde;o do LIX Dia Mundial da Paz, celebrado em 1&ordm; de janeiro de 2026, o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2026581,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2029676","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2029676","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2029676"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2029676\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2026581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2029676"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2029676"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2029676"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}