{"id":2029715,"date":"2026-01-08T23:00:00","date_gmt":"2026-01-08T23:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2026-01-08T23:00:00","modified_gmt":"2026-01-08T23:00:00","slug":"um-desafio-a-nossa-humanidade-a-riqueza-que-corre-o-risco-de-nos-tornar-cegos-e-surdos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/um-desafio-a-nossa-humanidade-a-riqueza-que-corre-o-risco-de-nos-tornar-cegos-e-surdos\/","title":{"rendered":"UM DESAFIO \u00c0 NOSSA HUMANIDADE. A riqueza que corre o risco de nos tornar cegos e surdos"},"content":{"rendered":"<p>A MENSAGEM DO REITOR-MOR,&nbsp;<em>Pe. F&aacute;bio Attard<\/em><\/p>\n<p>A par&aacute;bola do rico e do pobre L&aacute;zaro que encontramos no evangelho de Lucas, cap&iacute;tulo 16, 19-31, n&atilde;o &eacute; simplesmente uma hist&oacute;ria sobre a justa distribui&ccedil;&atilde;o das riquezas materiais. &Eacute; uma narrativa que penetra no cora&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o humana, colocando-nos perante uma pergunta inquietante: quem possui verdadeiramente quem! O rico possu&iacute;a a sua riqueza, ou era a riqueza que o possu&iacute;a, transformando-o em seu escravo?<\/p>\n<p>Esta invers&atilde;o de perspetiva abre um espa&ccedil;o de reflex&atilde;o profunda. O homem da par&aacute;bola n&atilde;o era condenado por ter roubado ou explorado, mas por se ter tornado cego e surdo. A sua trag&eacute;dia n&atilde;o estava no ter, mas em n&atilde;o ver e em n&atilde;o escutar. Vivia num mundo reduzido &uacute;nica e simplesmente &agrave;s dimens&otilde;es da sua casa, dos seus bens, do seu bem-estar imediato. &Agrave; porta da sua casa jazia L&aacute;zaro, coberto de chagas que os c&atilde;es vinham lamber, mas aquele pobre tinha-se tornado invis&iacute;vel, o seu grito silencioso inaud&iacute;vel.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>A riqueza existencial<\/strong><\/p>\n<p>Quando falamos de riqueza, tendemos imediatamente a pensar no dinheiro, nos bens materiais, no sucesso econ&oacute;mico. Mas existe uma riqueza, mais subtil e pervasiva: a existencial. &Eacute; a riqueza de quem est&aacute; bem, de quem encontrou o seu espa&ccedil;o de conforto, de quem vive rodeado de rela&ccedil;&otilde;es positivas, de experi&ecirc;ncias gratificantes, de certezas tranquilizantes. &Eacute; a riqueza de uma comunidade que funciona, de um grupo onde uma pessoa se sente acolhida, de um ambiente onde tudo decorre de forma agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p>Esta riqueza existencial &eacute; um dom, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida. &Eacute; justo gozar dela, celebr&aacute;-la, dar-se conta da beleza daquilo que se vive. Mas precisamente aqui se esconde o perigo mais insidioso: o de se fechar nesta abund&acirc;ncia, de transformar o espa&ccedil;o do bem-estar num gueto dourado, separado da realidade circundante.<\/p>\n<p>O rico da par&aacute;bola vivia assim. N&atilde;o lhe faltava nada e, no entanto, faltava-lhe tudo: faltava-lhe a capacidade de ver fora de si mesmo, de se deixar tocar pela realidade que pressionava &agrave; sua porta. A sua riqueza tornara-se uma pris&atilde;o invis&iacute;vel, com grades de rotina, indiferen&ccedil;a e autorreferencialidade.<\/p>\n<p><strong>A cegueira e a surdez do conforto<\/strong><\/p>\n<p>A zona de conforto &eacute; um dos conceitos mais perigosos da modernidade. Est&aacute; inclu&iacute;do nele que o bem-estar &eacute; um direito a proteger, mais do que um dom a compartilhar. Convence-nos que preservar o nosso equil&iacute;brio &eacute; mais importante do que abrir-nos ao grito dos outros. Sussurra-nos que j&aacute; fizemos bastante, que podemos finalmente descansar, que os outros problemas n&atilde;o nos dizem respeito diretamente.<\/p>\n<p>A cegueira do rico n&atilde;o era f&iacute;sica, mas espiritual. Via o seu pal&aacute;cio, os seus h&aacute;bitos, a sua mesa<\/p>\n<p>preparada. Mas n&atilde;o via L&aacute;zaro. N&atilde;o porque L&aacute;zaro estivesse escondido, mas porque o rico havia desenvolvido aquela especial forma de cegueira que filtra a realidade, deixando passar s&oacute; aquilo que confirma a pr&oacute;pria vis&atilde;o do mundo.<\/p>\n<p>E havia tamb&eacute;m a surdez. O texto revela-nos este segundo defeito quando o homem, do al&eacute;m, suplica a Abra&atilde;o que envie algu&eacute;m dos mortos para que os seus irm&atilde;os escutem. Mas era ele que n&atilde;o havia escutado! Era surdo ao grito silencioso da pobreza, &agrave;quele sofrimento que n&atilde;o grita, mas subsiste, que n&atilde;o perturba, mas existe, que n&atilde;o reclama, mas espera.<\/p>\n<p><strong>A escuta interior como condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel<\/strong><strong> da escuta exterior<\/strong><\/p>\n<p>Como se ultrapassa esta dupla paralisia da cegueira e da surdez? A resposta n&atilde;o consiste num simples esfor&ccedil;o de vontade ou num programa de atividades sociais. A resposta consiste numa convers&atilde;o mais profunda: n&atilde;o podemos ver Cristo no pobre, se n&atilde;o contemplarmos Cristo dentro de n&oacute;s. N&atilde;o podemos escutar o grito dos vulner&aacute;veis, se n&atilde;o estivermos sintonizados com a voz de Deus no nosso cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>As grandes testemunhas da caridade &ndash; de Dom Bosco a Madre Teresa de Calcut&aacute; &ndash; n&atilde;o partiram de uma an&aacute;lise l&oacute;gica da pobreza, mas de uma experi&ecirc;ncia m&iacute;stica do amor de Deus. A sua capacidade de ver, escutar e responder ao exterior nascia de uma vida interior intensa, de uma contempla&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o era fuga do mundo, mas prepara&ccedil;&atilde;o para o encontro com o mundo.<\/p>\n<p>Este &eacute; o paradoxo: quanto mais se desce na profundidade do pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o para a&iacute; reconhecer o amor de Deus, mais se adquire a capacidade de sair de si para ir ao encontro do outro. A vida espiritual n&atilde;o &eacute; um fechar-se em si narcis&iacute;stico, mas o afastamento necess&aacute;rio para desenvolver aquela sensibilidade que nos permite perceber Cristo onde quer que se manifeste.<\/p>\n<p><strong>A miss&atilde;o como condivis&atilde;o da riqueza<\/strong><\/p>\n<p>Cada pessoa &eacute; uma miss&atilde;o. Esta afirma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o significa que todos devemos tornar-nos ativistas fren&eacute;ticos ou empenhar-nos em projetos grandiosos. Significa antes que a riqueza que recebemos &ndash; material, cultural, espiritual, existencial &ndash; n&atilde;o &eacute; propriedade exclusiva nossa, mas um dom destinado a circular.<\/p>\n<p>Quem ama p&otilde;e-se sem movimento, sai de si, deixa-se atrair e atrai &agrave; sua volta. O amor &eacute; din&acirc;mico por natureza: n&atilde;o pode ser acumulado, conservado, blindado numa zona de conforto. Ou o compartilhamos, ou o perdemos. Ou o fazemos circular, ou se corrompe.<\/p>\n<p>O desafio, portanto, n&atilde;o &eacute; renunciar &agrave; riqueza existencial, mas possu&iacute;-la de modo diferente: n&atilde;o como propriet&aacute;rios ciosos, n&atilde;o como ponto de chegada, mas como ponto de partida para novos percursos de partilha.<\/p>\n<p><strong>Minoria criativa e sinais de esperan&ccedil;a <\/strong><\/p>\n<p>Num mundo marcado por crescentes desigualdades e indiferen&ccedil;as estruturais, quem escolhe n&atilde;o se tornar cego e surdo torna-se necessariamente uma minoria. Mas esta &eacute; uma minoria criativa, capaz de acender luzes de esperan&ccedil;a ainda que pequenas, mas certamente contagiantes.<\/p>\n<p>A esperan&ccedil;a n&atilde;o &eacute; otimismo ing&eacute;nuo nem resigna&ccedil;&atilde;o passiva. A esperan&ccedil;a &eacute; uma pessoa: Cristo, que continua a interpelar-nos atrav&eacute;s de todos os L&aacute;zaros que jazem &agrave; porta da nossa exist&ecirc;ncia. Reconhec&ecirc;-l&rsquo;O ali, no rosto desfigurado do pobre, no grito silencioso do exclu&iacute;do, no sofrimento ignorado do vulner&aacute;vel, &eacute; o &uacute;nico modo de n&atilde;o nos tornarmos escravos da nossa riqueza, de n&atilde;o acabarmos consumidos pelo nosso pr&oacute;prio bem-estar.<\/p>\n<p>A par&aacute;bola inculca-nos com urg&ecirc;ncia: hoje, j&aacute;, antes que seja demasiado tarde, abrir os olhos e os ouvidos &agrave; realidade que nos rodeia. Porque amanh&atilde;, do outro lado, de nada servir&aacute; chorar por n&atilde;o ter visto nem escutado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A MENSAGEM DO REITOR-MOR,&nbsp;Pe. F&aacute;bio Attard A par&aacute;bola do rico e do pobre L&aacute;zaro que encontramos no evangelho de Lucas, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2026620,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[793,788],"tags":[],"class_list":["post-2029715","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reitor-mor","category-social"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2029715","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2029715"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2029715\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2026620"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2029715"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2029715"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2029715"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}