{"id":2030171,"date":"2026-02-18T23:00:00","date_gmt":"2026-02-18T23:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2026-02-18T23:00:00","modified_gmt":"2026-02-18T23:00:00","slug":"coerencia-a-via-privilegiada-para-a-caridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/infoans.news\/pt-pt\/coerencia-a-via-privilegiada-para-a-caridade\/","title":{"rendered":"Coer\u00eancia, a via privilegiada para a caridade"},"content":{"rendered":"<p><strong>A MENSAGEM DO REITOR-MOR,&nbsp;<\/strong><em><strong>Pe. F&aacute;bio Attard<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Esta passagem do evangelho de Lucas, cap&iacute;tulo 11,37-41, narra-nos como Jesus, a caminho de Jerusal&eacute;m, aceita o convite para jantar com o fariseu. Temos um di&aacute;logo que representa um momento de confronto entre duas vis&otilde;es da religiosidade: a formal, centrada nas prescri&ccedil;&otilde;es rituais, e a do cora&ccedil;&atilde;o, proposta por Jesus.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&Agrave; pergunta feita a Jesus sobre o motivo pelo qual n&atilde;o segue os gestos rituais da tradi&ccedil;&atilde;o, ao fariseu &eacute; feito o convite a ir al&eacute;m das a&ccedil;&otilde;es exteriores, a verificar se a exterioridade corresponde de verdade &agrave;quilo que leva no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Jesus aceita o convite sem condi&ccedil;&otilde;es<\/strong><\/p>\n<p>Como o fariseu, tamb&eacute;m n&oacute;s podemos convidar Jesus para a nossa mesa. A sua resposta &eacute; surpreendente: Jesus aceita, sempre, sem p&ocirc;r condi&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o pretende que a nossa casa esteja em ordem, n&atilde;o exige garantias sobre a nossa coer&ecirc;ncia. <em>&ldquo;Ele foi e p&ocirc;s-se &agrave; mesa&rdquo;<\/em> &ndash; com esta simplicidade desarmante, Jesus entra na vida do fariseu, sabendo j&aacute; o que vai encontrar, conhecendo as contradi&ccedil;&otilde;es, as sombras, as duplicidades.<\/p>\n<p>Esta &eacute; a primeira mensagem libertadora: Jesus n&atilde;o espera que sejamos capazes de tudo; vem para nos ajudar a ser capazes. N&atilde;o devemos esconder quem somos de facto para ser dignos da sua presen&ccedil;a. Antes, &eacute; mesmo a nossa incompet&ecirc;ncia a tornar-nos necessitados do encontro com Ele.<\/p>\n<p><strong>Uma presen&ccedil;a que ilumina<\/strong><\/p>\n<p>Mas aten&ccedil;&atilde;o: se Jesus aceita sem condi&ccedil;&otilde;es, a sua presen&ccedil;a nunca &eacute; neutra ou in&oacute;cua. Jesus entra e leva luz. O fariseu esperava talvez o h&oacute;spede complacente, algu&eacute;m a exibir, a apresentar aos conhecidos: &ldquo;Olhem, at&eacute; Jesus vem a minha casa&rdquo;. Ao inv&eacute;s, v&ecirc;-se posto a nu sem ser humilhado com isso nem embara&ccedil;ado. A presen&ccedil;a de Jesus ilumina as contradi&ccedil;&otilde;es, faz emergir aquilo que preferir&iacute;amos manter escondido.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; uma agress&atilde;o, &eacute; antes como quando acendemos a luz num quarto: a luz n&atilde;o cria a poeira que h&aacute;, mas torna-a vis&iacute;vel. Assim Jesus: n&atilde;o inventa os nossos defeitos, mas bondosa e gradualmente nos ajuda a v&ecirc;-los por aquilo que s&atilde;o. Em poucas palavras, a sua presen&ccedil;a &eacute; um convite a fazer claridade na nossa vida: a ver com honestidade onde somos aut&ecirc;nticos e onde ao inv&eacute;s vivemos de m&aacute;scaras, onde h&aacute; coer&ecirc;ncia e onde h&aacute; contradi&ccedil;&atilde;o entre aquilo que parecemos e aquilo que somos.<\/p>\n<p><strong>Al&eacute;m das apar&ecirc;ncias: o chamamento &agrave; coer&ecirc;ncia pessoal<\/strong><\/p>\n<p><em>&ldquo;V&oacute;s fariseus limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior est&aacute; cheio de rapina e de maldade&rdquo;.<\/em> Jesus n&atilde;o condena as pr&aacute;ticas exteriores em si &ndash; as ablu&ccedil;&otilde;es, as ora&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, a observ&acirc;ncia &ndash; mas projeta luz sobre aquela subtil e terr&iacute;vel cis&atilde;o entre exterior e interior, a duplicidade de quem cuida a imagem ao mesmo tempo que descura o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&Eacute; uma tenta&ccedil;&atilde;o que atravessa todos os tempos. Quanta energia despendemos para construir uma imagem aceit&aacute;vel! Nas redes sociais, na vida profissional, at&eacute; nas rela&ccedil;&otilde;es mais &iacute;ntimas: filtramos, selecionamos, mostramos s&oacute; aquilo que nos valoriza. Ao contr&aacute;rio, Jesus chama a uma coer&ecirc;ncia a n&iacute;vel muito pessoal, antes ainda que p&uacute;blico. N&atilde;o se trata daquilo que os outros veem, mas de quem somos de verdade quando ningu&eacute;m nos v&ecirc;. &Eacute; ali, na intimidade do cora&ccedil;&atilde;o, que se joga a nossa autenticidade.<\/p>\n<p><strong>Uma vis&atilde;o sem zonas de sombra &nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>&ldquo;Insensatos! Aquele que fez o exterior n&atilde;o fez tamb&eacute;m o interior?<\/em>&rdquo;. H&aacute; aqui uma profunda intui&ccedil;&atilde;o humana e espiritual: o ser humano &eacute; uno. N&atilde;o estamos divididos em compartimentos estanques &ndash; a dimens&atilde;o p&uacute;blica e a privada, o corpo e o esp&iacute;rito, a exterioridade e a interioridade. N&atilde;o podemos ter zonas de sombra, &aacute;reas da vida subtra&iacute;das &agrave; luz, pensando que n&atilde;o contaminamos o resto.<\/p>\n<p>O convite de Jesus &eacute; uma vis&atilde;o sem zonas de sombra: uma vida em que n&atilde;o haja &acirc;ngulos escondidos onde cultivamos v&iacute;cios, ego&iacute;smos, duplicidade. Uma transpar&ecirc;ncia interior onde tudo &eacute; posto &agrave; luz da consci&ecirc;ncia e da gra&ccedil;a. Isto n&atilde;o significa perfei&ccedil;&atilde;o imediata, mas honestidade radical: reconhecer as nossas fragilidades, cham&aacute;-las pelo nome, n&atilde;o justific&aacute;-las, nem escond&ecirc;-las. &Eacute; o primeiro passo para a cura.<\/p>\n<p><strong>A esmola como dom de si <\/strong><\/p>\n<p><em>&ldquo;Antes, dai esmola do que possu&iacute;s, e para v&oacute;s tudo ficar&aacute; limpo.&rdquo;<\/em> Aqui est&aacute; o cume da mensagem de Jesus. A verdadeira purifica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vem de rituais exteriores, mas daquilo que h&aacute; dentro. A coer&ecirc;ncia tem a capacidade de ser portadora de bondade. A palavra &ldquo;esmola&rdquo; em grego tem as suas ra&iacute;zes na palavra &ldquo;miseric&oacute;rdia&rdquo;, compaix&atilde;o. N&atilde;o &eacute; s&oacute; quest&atilde;o de dar dinheiro, mas de nos darmos a n&oacute;s mesmos: o nosso tempo, a nossa aten&ccedil;&atilde;o, a nossa presen&ccedil;a, a nossa vulnerabilidade.<\/p>\n<p>Quando vivemos esta unidade interior, quando n&atilde;o h&aacute; cis&atilde;o entre quem somos e quem parecemos, ent&atilde;o desta unidade emana a verdadeira esmola, a aut&ecirc;ntica miseric&oacute;rdia: um dom aut&ecirc;ntico, n&atilde;o calculado, n&atilde;o instrumental. N&atilde;o damos para parecer generosos, mas porque a generosidade tornou-se quem somos.<\/p>\n<p><strong>Os jovens t&ecirc;m sede de adultos aut&ecirc;nticos e coerentes<\/strong> Esta mensagem tem uma resson&acirc;ncia particular hoje, especialmente para as novas gera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Os jovens vivem imersos numa cultura onde tudo tem um pre&ccedil;o, tudo &eacute; calculado em termos de rendimento e utilidade; as identidades est&atilde;o fragmentadas entre mil perfis, m&aacute;scaras, pap&eacute;is sociais; as rela&ccedil;&otilde;es s&atilde;o mediatas, filtradas, muitas vezes an&oacute;nimas ou superficiais.<\/p>\n<p>Neste contexto, os jovens t&ecirc;m uma sede desesperada de adultos aut&ecirc;nticos: pessoas que vivem aquilo que dizem, que n&atilde;o t&ecirc;m um rosto em p&uacute;blico e outro em privado, que n&atilde;o mentem por conveni&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso nunca esquecer que os jovens n&atilde;o procuram adultos perfeitos &ndash; esses rejeitam-nos como falsos. Procuram adultos verdadeiros: capazes de reconhecer as suas pr&oacute;prias fragilidades, de ser coerentes nas pequenas coisas cotidianas, de manter a palavra dada, de ter uma vida interior que se v&ecirc;. O melhor servi&ccedil;o que podemos prestar &agrave;s novas gera&ccedil;&otilde;es n&atilde;o &eacute; dar-lhes conselhos morais ou regras de comportamento, mas testemunhar uma vida aut&ecirc;ntica.<\/p>\n<p><strong>O convite permanente<\/strong><\/p>\n<p>O fariseu convidou Jesus uma vez. Mas o texto revela-nos que Jesus est&aacute; sempre dispon&iacute;vel a ser convidado, hoje tal como h&aacute; dois mil anos.<\/p>\n<p>A pergunta para cada um de n&oacute;s &eacute;: estamos dispostos a acolh&ecirc;-l&rsquo;O sabendo que a sua presen&ccedil;a nos colocar&aacute; perante a verdade de n&oacute;s mesmos? Estamos prontos a deixar que ilumine as zonas de sombra? E ainda: depois de haver acolhido esta luz, estamos dispostos a viver na autenticidade renunciando &agrave;s m&aacute;scaras, dando aos outros n&atilde;o aquilo que nos engrandece, mas aquilo que temos dentro&rdquo;?<\/p>\n<p>Num mundo sedento de verdade, ser pessoas aut&ecirc;nticas n&atilde;o &eacute; um luxo espiritual: &eacute; o primeiro ato de caridade que podemos realizar. Especialmente para com quem, como os jovens, tem o direito de ver que &eacute; poss&iacute;vel viver sem duplicidades, que a integridade que n&atilde;o &eacute; uma utopia, que a coer&ecirc;ncia entre interior e exterior &eacute; o caminho da verdadeira liberdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A MENSAGEM DO REITOR-MOR,&nbsp;Pe. 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