(ANS — Yangon) — “No drama coletivo marcado pela insegurança e pela incerteza quanto ao futuro, ainda é possível manter a esperança no Mianmar, mesmo em meio ao conflito, à pobreza e ao doloroso sentimento de abandono internacional. Mas essa esperança não é um otimismo ingênuo: é uma esperança cristã nascida da Cruz e da Ressurreição”: é o que escreve o Cardeal-Arcebispo de Yangon, Dom Charles Maung Bo, salesiano, em mensagem que traça um panorama da situação do País cinco anos depois do golpe de Estado.
O Cardeal observa: “Nossa esperança está, antes de tudo, em Deus, não nas circunstâncias. A população do Mianmar perdeu muitas certezas — paz, meios de subsistência, estabilidade, até mesmo atenção internacional —; mas não perdeu a presença de Deus. Como lembram os Salmos, «o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado». Nos vilarejos esvaziados pela guerra, nos campos de deslocados internos, nas lágrimas silenciosas das mães e na perseverança de catequistas e religiosos, Deus continua a caminhar com o Seu povo”.
Em segundo lugar, o Cardeal destaca que “os próprios pobres se tornaram sinais de esperança. No Mianmar, continuam a compartilhar o pouco que têm; as famílias continuam a rezar juntas; os jovens seguem engajados no voluntariado, no serviço e no sonho de um futuro melhor. A Igreja permanece próxima dos sofredores, por meio da educação, da assistência à saúde, do apoio humanitário e da mediação silenciosa. Não são sinais espetaculares, mas são sinais do Evangelho, como o grão de mostarda”.
O terceiro ponto enfatizado pelo Cardeal Bo é que “a fidelidade da Igreja é em si mesma um sinal de esperança. Quando a Igreja rejeita o ódio, recusa a violência e continua a falar a linguagem da reconciliação e da dignidade humana, ela se torna um Sacramento de Esperança. Mesmo quando o mundo parece indiferente, a Igreja no Mianmar acredita que a violência não terá a última palavra”.
O Cardeal acrescenta ainda que, mesmo diante da aparente indiferença da Comunidade Internacional, “isso não significa abandono por parte de Deus, o Qual muitas vezes atua em lugares esquecidos. O Mianmar pode se sentir negligenciado, mas não está esquecido no plano de Deus. O sangue dos inocentes, as preces dos sofredores, a resiliência dos Fiéis não são em vão”.
O Cardeal-Arcebispo salesiano ressalta que “a Esperança no Mianmar é um dever moral. Perder a Esperança seria entregar o futuro à violência e ao desespero. A Esperança Cristã nos dá força para resistir à injustiça de maneira não violenta, proteger a vida, educar crianças mesmo no exílio e preparar o terreno para a reconciliação, muito antes de serem assinados acordos de paz”.
“Os habitantes do Mianmar mantêm a Esperança — observa — não porque a situação seja fácil, mas porque Deus é Fiel. E enquanto houver pessoas que rezam, perdoam, servem e se recusam a odiar, a Esperança permanece viva no país”.
Diante da violência generalizada, do sofrimento e do deslocamento, o Cardeal observa que “as comunidades continuam cuidando umas das outras. E guias religiosos, especialmente cristãos, budistas e muçulmanos, seguem se pronunciando em favor da paz”.
Por fim, as comunidades cristãs no Mianmar, tanto católicas quanto protestantes, apoiadas por organismos ecumênicos, “estão ativamente engajadas na construção da paz e da reconciliação em diversos níveis”, conclui o Purpurado. Os responsáveis seguem lançando apelos pelo fim da violência, convidando os cidadãos à reconciliação e ao perdão. Por todo o país, as igrejas promovem encontros inter-religiosos de oração pela paz, iniciativas que “reafirmam e fortalecem o convívio na paz”.



